quinta-feira, 21 de abril de 2011

O abismo de Virgínia


                                      Virgínia entendeu tudo, mas não se recuperou da espécie de soco que levara no estômago. As duas horas que ficara com Gil, entre a subida no morro, a confissão do rapaz e o retorno para a cidade, pareciam mais longas que os cinco anos e quatro meses de namoro. A ternura e o carinho de antes deram lugar para a raiva e a dúvida, sentimentos que nunca tivera. Não estava preparada para isso. Sempre pensara que o silêncio, sem uma explicação plausível, fere mais do que as mais duras palavras. Agora, revisa Virgínia, teria sido preferível o tal silêncio, mesmo que ele esconda boas doses de falsidade e cinismo.
                                     - Droga. Por que eu não aceitei o silêncio dele? Não teria recebido a sentença – pensa, enquanto se revira na cama, acende a luz e tenta achar na estante um livro para passar a noite, sem oferecer espaço para a autopiedade e a depressão.
                                     Pronto. Achou a fórmula mágica para a insônia. Mesmo que o relógio marque 23h14mim, liga para a psicóloga, profissional com quem mantém sessões de terapia há mais de oito anos. Afinal, ela nunca negara um atendimento, mesmo que a causa fosse de menor monta que uma ameaça de morte. Disca para o número guardado na memória e não deixa tocar uma segunda vez. Desliga, ciente de que o tempo não será suficiente para narrar o encontro/desencontro com o namorado. Poderá marcar hora amanhã.
                                     Vai até a geladeira, toma um copo d’água, belisca um pedaço de maçã e engatilha uma segunda alternativa, que envolve uma decisão corajosa e implica na saída de casa. Virgínia pensa que poderia estar morta naquele momento e não terá outra chance. Vai denunciar Gil na delegacia de polícia localizada a quatro quarteirões de sua casa. Leitora contumaz de crônicas policiais, a jovem sabe que muitos assassinos de mulheres são antes denunciados por vítimas ameaçadas e amedrontadas. É o que sente desde que ouviu: “Estou querendo dizer que eu ia te matar.”
                                     No entanto, quanto mais repete a frase assustadora, mais ela pensa que vai encontrar um bando de homens na delegacia. Muitos deles podem ter dito algo parecido para suas mulheres. Vão afirmar que a sentença de Gil não significa uma ameaça. E a tal prova que sempre pedem? Será a palavra dela contra a dele. Não há sequer uma arma. Uma gravação. Ou um arranhão. Retira a roupa que já tinha colocado para a saída e desiste da segunda tentativa de buscar ajuda. Não haverá denúncia.
                                     De olhos ainda arregalados, vai para a sala e liga o televisor, em busca de um filme que a faça pregar no sono. Pega o controle e fica zapeando até se cansar. Passando da meia-noite, os filmes são intimistas e envolvem conflitos entre casais, algo do qual Virgínia não deseja experimentar. Conflito? É nisso que ela pensa ao relembrar os momentos em que ficou com Gil - da chegada ao topo da serra à descida, quando travaram um diálogo que jamais imaginara. Não houve, de fato, um conflito. Mas uma atitude dele que a deixou desconsertada. Lembra novamente na sua psicóloga, que lhe contara diversos casos de homens que simulam uma situação para criar uma indisposição com a mulher, levando-os à separação.
                                     Sim, agora Virgínia entende a metáfora utilizada pelo seu namorado. Disse que pensou em matá-la e, ao mesmo tempo, amava-a. Chegou a revelar que, por nutrir este sentimento, sentia-se no inferno por ter que ficar para sempre ao lado dela. A garota já não consegue deitar, tampouco sentar. Circula por todos os aposentos de sua casa como se quisesse encontrar um motivo para as palavras de Gil. Ele vira e apontara o abismo que os separava. Nada que Virgínia desconfiasse, e essa era sua catarse naquele momento. Afinal, Gil tinha outra mulher? Ela estava sendo traída?
                                     Ela, de fato, o ama e sente que ele está fugindo. Quer que ela suma. “Não conseguirá”, pensa, como se gritasse para todos ouvirem. Na solidão da madrugada que avança, decide que só há um jeito de mantê-lo prisioneiro dela por toda a vida. Da mesma forma como ficara indiferente ao abismo na serra horas antes, Virgínia chega ao parapeito da janela de seu quarto, localizado no oitavo andar do edifício. As luzes da cidade ainda brilham quando ela joga o corpo para frente e deixa-se cair, sem emitir qualquer grito. Às 2h34min, seu corpo sem vida está inerte na laje do piso do prédio de 15 andares. O silêncio só é interrompido quando chegam os primeiros vizinhos, despertados pelo impacto da queda. Para Virgínia, não importam mais o silêncio ou as palavras. Ela encontrou o fundo do abismo que Gil ousara abrir entre eles.

* Pequeno conto de continuidade ao conto Abismos, de Luiz Villela. Ensaio feito na aula de Escrita Criativa, da PUCRS, primeiro semestre de 2011.

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