sábado, 5 de abril de 2008

Restrições ao eucalipto foram retiradas da proposta de zoneamento da silvicultura

Não houve nem discussão e nem votação na reunião do Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema), realizada hoje à tarde, em Porto Alegre. Ela foi convocada por edital com o objetivo de apreciar e votar a proposta de Zoneamento Ambiental da Silvicultura (ZAS) elaborada pelos técnicos da Fepam, com as alterações sugeridas pelas Câmaras Técnicas do Consema: CT de Biodiversidade e Política Florestal, CT de Agroindústria e Agropecuária, e CT de Assuntos Jurídicos.
No entanto, o representante da Associação Gáucha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), conselheiro Flávio Lewgoy, um veterano das lutas ambientais, pediu vistas do que seria votado, com base no regimento do conselho. Ele e os demais representantes das ONGs ambientalistas, em minoria no órgão, reclamam que a convocação ocorreu com apenas três dias de antecedência e as sugestões das Câmaras Técnicas não chegaram todas às suas mãos a tempo de serem examinadas.
Demonstrando uma certa irritação, o presidente do conselho e secretário do Meio Ambiente, Carlos Otaviano Brenner de Moraes, acatou a solicitação. Mas ressaltou que não aceitará novos pedidos de vistas, ficando convocada nova reunião para a próxima quarta-feira, para votação, sem mais adiamentos, advertiu. “O governo poderia ter aprovado o zoneamento a hora que quisesse, mas temos procurado, acima de tudo, prestigiar a autoridade desse conselho”, afirmou. Em seguida, se retirou rapidamente do auditório da Sema para seu gabinete.

Assim, a reunião serviu para apresentação pública das mudanças sugeridas ao zoneamento pelas Câmaras Técnicas. Pouco antes, Agapan, Amigos da Terra e Ingá, divulgaram úma carta aberta dirigida ao secretário (v. íntegra ao final). As ONGs apelam, basicamente, para que sejam mantidas as limitações ao plantio de florestas exóticas (pinus e eucalipto) no ZAS, que haviam sido acordadas por consenso nas reuniões da Câmara Técnica de Biodiversidade e Política Florestal.

Postura Autoritária

Para surpresa geral, afirmam, na última reunião dessa Câmara, dia 18 de março, apareceu a presidenta da Fepam (Fundação Estadual de Proteção ao Meio Ambiente), Ana Pellini, para promover uma espéice de intervenção na Câmara Técnica. Ela se apresentou no lugar do conselheiro que vinha representando a Fepam e, junto com representantes dos setores empresariais, retirou do documento todas as principais restrições ao plantio de eucalipto e pinus que consensualmente tinham sido aprovadas.
“Com o agravante de que a presidenta da Fepam, a qual nunca havia participado antes desta Câmara Técnica, votou no lugar do resentante da Fepam na CT, sem ter sido designada para tal representação. Com mais esta postura autoritária e permissiva, comprometem-se os principais fundamentos do zoneamento elaborado pelos próprios técnicos da Sema. Este comprometimento significa a eliminação de qualquer restrição para os plantios silviculturais em seu território”, diz a carta.
Segundo o representante do Ingá, biólogo Paulo Brack, doutor em ecologia e recursos naturais e professor da Ufrgs, foram retirados os elementos mais importantes do zoneamento: 1) os percentuais possíveis de se plantar em cada Unidade de Paisagem Natural (UPN); 2) a limitação do tamanho dos maciços de eucalipto e pinus; e 3) a definição do distanciamento entre estes maciços.
“Esses aspectos são fundamentais, sem esses elementos o zoneamento não terá eficácia nenhuma, voltamos à estaca zero”, afirma Brack.

Da redação da EcoAgência
http://www.ecoagencia.com.br/index.php

2 comentários:

Anônimo disse...

Caro Jorge,

Há mais de dois anos acompanho esta questão do zoneamento ambiental da silvicultura (ZAS) e lamento que nenhum jornalista ainda conseguiu explicar as coisas sem se comportar como um mero anotador - e reprodutor - de frases. Talvez seja fruto da corrida do dia a dia, de ter de fazer mal e superficialmente três pautas por dia.

Como desconhecem, não têm independência para redigir ou falar sobre o tema.

No teu próprio blog vi afirmações na linha do "empresas vêm, destruirão tudo e vão embora", "eucalipto destrói a natureza...". Muito me admira vindo de você aceitar essas acusações contra o eucalipto, sabedor que você militou no campo e lavoura por tempos.
Há uma distorção básica na questão. Primeiro, queriam que uma proposta de um grupo técnico da Fepam (lembre-se, proposta) virasse lei, sem discussão. A proposta foi detonada em quatro audiências no Estado. A mais forte foi em Santa Maria, onde existe uma faculdade de engenharia florestal e onde os professores (vários doutores) não se furtaram a qualificar como lixo o que havia sido feito.
O problema da primeira versão é que inventaram números, chutaram percentuais para restringir plantios, atropelaram o ordenamento jurídico. Enfim, havia coisas boas na proposta, mas havia tremendos equívocos. Mais importante, a base técnica era extremamente frágil e recheada de ilegalidades.
Agora, depois de meses de discussões, volta de novo o tema à pauta.
A Agapan participou de uma Câmara técnica do Consema (não sei qual é), mas resolveu se retirar porque não concordava com o que estava feito. Muito fácil, não concordo, então me retiro. Depois é simples vir a público dizer que a reunião do Consema foi convocada às pressas. E o que a Agapan ficou fazendo enquanto as propostas eram discutidas? Não estava interessada? Claro, pularam fora do barco para depois dizer o que estão dizendo. O sr. Paulo Brak e sua ONG participou das reuniões, até onde sei. Dizem que conhecia a fundo o que foi discutido e que que todos os pontos foram negociados até concordância mútua das partes.
O texto que publicaste começa informando que não houve nem discussão nem votação. Evidente, o Sr. representante da Agapan nem esperou que houvesse discussão. "Questão de ordem", disse o Sr. Pediu vistas e levou. Poderia ter esperado a discussão. Agora virão a público dizer que não houve discussão.

Mas o maior problema é que os amigos ambientalistas querem um zoneamento para restringir as florestas. Querem passar por cima da lei, porque o zoneamento é para orientar, ajudar na gestão, indicar as potencialidades, e não dizer não ou afirmar que em tal lugar não se pode plantar.
Para teres uma idéia, uma proposta dos ambientalistas era que fosse deixado um corredor de 8 quilômetros na volta de qualquer plantação florestal. OITO QUILÔMETROS!!! faça as contas e veja o que significa isso. Por que não dizem que essa era a proposta...

Mais, zoneamento só para árvore é realmente ser ambientalmente desonesto. Quer dizer, podemos encher o Pampa de cana de açucar, uma cultura que degrada e exige infinitamente mais da natureza. Isso é preocupação ambiental? Eucalipto e pinus não pode, mas cana, mamona, capim anoni pode? Sejamos coerentes se queremos defender de fato o Pampa!!

Você como jornalista poderia se informar mais sobre o eucalipto e os projetos florestais, em vez de copiar chavões. Vejo discursos como do prof Buckup – diga-se de passagem, que é doutor em crustáceos! - e a pergunta: o que farão com os tocos? Ora, essa resposta é elementar para quem conhece o mínimo, o básico, o be-a-bá de das florestas plantadas. Os tocos rebrotam ou apodrecem. Então, pode ter floresta nova a cada corte.
Esses projetos, com bilhão de dólares investidos, não é para plantar, colher e ir embora. Quem é o louco que vai gastar tanto dinheiro para isso? Ou acreditas que um ano de produção numa indústria de celulose tira o investimento? Jorge, são projetos para ficar décadas, com responsabilidade ambiental que nenhum outro setor do agronegócio brasileiro tem. Você sabia que a cada hectare plantado um é preservado? Você que trabalhou no campo e lavoura viu algum produtor rural ou empresa fazer isso?

Para finalizar e respeitar, acho que precisamos de menos paixão ideológica e política e mais conhecimento técnico sobre este assunto. Queriam aprovar uma proposta empírica, fundamentada em chute. Ora, a presidente da Fepam propôs que uma equipe técnica continuasse a trabalhar no tema por mais alguns meses, para incluir um dado correto, e não um número chutado e que os ambientalistas não conseguem explicar de onde tiraram.

Mas como entender isso sem tirar de mente que o governo que está à frente disso tudo não é do PT? E se fosse o companheiro Olívio, iria empurrar aquela proposta de zoneamento goela abaixo e arcar com a fuga de outros investimentos? Não esquecemos do caso Ford, que marca Olívio até hoje.

Bem, era este meu desabafo.


José Carlos – Guaíba-RS

Dido disse...

Bom, sabemos quem é Jorge Correia, sabemos que é jornalista, mas não sabemos quem é você sr. José Carlos.. algum investidor que se obrigou a postar um comentário ao ver seu interesse contrariado? Não sabemos...Francamente, acusar um jornalista de ser superficial e dizer que eucalipto não prejudica a terra é ser mais desinformado ainda. O Pampa gaúcho corre sério risco sim. Na época de Olívio Dutra, que mandou a Ford para a Bahia e hoje rendeu empregos aos baianos (embora que de serventes, servidores de cafezinho) existia um estudo aprofundado a cerca da possibilidade de utilizar estas áreas para a produção de milho, que hoje é utilizado como energia. Se não haver um respeito ao que chamamos de natural, o que será de seus netos, sr. José Carlos? Comerão celulose? É fácil falar de termos técnicos a cerca de um assunto que você estuda há dois anos. Mas o mais difícil e transformar esses termos técnicos em termos acessíeis a todos. Essa é a tarefa de um jornalista, não ser superficial, mas decifrar os códigos que muitos querem esconder.
Anderson Lopes, Estudante de Jornalismo.